O dia começou bem... Depois de uma boa noite, apenas com quatro horas de sono, o que para mim é manifestamente pouco, levo as ninas à escola conduzindo como um autómato. Deixo a Rita e, quase ao chegar à escola da Beatriz, ao virar da última curva, azar! Operação Stop! O coração dispara sempre que isto me acontece, existe sempre algum papel que está irregular. Revi em 30 segundos todas as minhas obrigações e respirei fundo. Desta vez tenho tudo em ordem. O senhor agente, moço novo e bem parecido, pediu-me os documentos e insinuou com ar trocista "a cadeirinha é muito bonita, mas não serve para nada sem o cinto". Nem respondi... Estava ainda apenas com um café tomado, com a certeza que nenhuma das duas ia chegar a horas, e com muito pouca vontade de começar o dia a mendigar. Quando regressou da parte de trás do carro, inchou o peito e com uma voz segura informou-me que tinha tudo em ordem, masque iria ser multada devido à falta de cinto de segurança no banco da minha filha. Respondi-lhe com algum tipo de desculpa mas, impaciente, pediu-me que fosse ter com ele à carrinha e virou-me as costas. Ora, quem me conhece bem sabe que eu não gosto mesmo nada de ficar a falar sózinha! Olhei para trás e lançando um olhar feroz à Beatriz, descarreguei a minha ira, vociferei meia dúzia de palavras azedas à pobre coitada, que ficou pior que chapeu de pobre. Demorei a sair do carro, como quem se prepara psicologicamente para o que vai enfrentar. O agente Pereira estava chateado pela minha demora e queria à viva força saber se eu ía pagar já. Tinha que "despachar" aquilo, e ainda tinha muito que fazer, disse ele. De manhã é difícil ter contenção emocional.... Deixei sair um raspanete por me ter deixado a falar sózinha, por me ter virado as costas, pelo nosso atraso, por querer que eu pagasse uma quantia que nem tinha dito de quanto, e mais meia dúzia de lamúrias com cara feia, às quais ele não ficou sensível. Cento e vinte euros. Sem saldo suficiente para pagar o raio da multa, ainda vi a carta apreendida. E longos minutos de espera, os papeis que o agente preenche são imensos, os autuados também, não há multibanco, a tensão sente-se no respirar. Cada um explode à sua maneira, e dois ou três a tentar acalmar os animos. Não aguentei! Falta muito? perguntei. O agente Pereira disse que ainda tinha muita coisa para preencher. Respondi-lhe "Pois olhe, vou levar a minha filha à escola e já volto". Olhou para mim como se eu fosse uma louca, depois olhou para os colegas, olharam todos para mim, e finalmente respondeu-me "tá bem". Suponho que também estivesse com vontade de se ver livre de mim durante um bocado, para conseguir acabar de preencher a papelada. Afinal não é fácil fazer duas coisas ao mesmo tempo, digo eu... Fui deixar a miúda à escola, ainda com tempo para lhe dar um abraço e sossegá-la dizendo que tudo iria correr bem e que não se preocupasse. Aproveitei e fui tomar o meu habitual pingo ao café da esquina, já com os olhos rasos de lágrimas e irritada com o mundo e comigo. Quando regressei, levei com três papeis para assinar e um sermão sobre os meus deveres maternais.
Ao menos que lhe sirva de lição era uma frase que já não houvia há imensos anos. Recuei no tempo e fechei-me dentro de mim, porque assim é sempre mais fácil fugir da parte escura da vida....
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