sexta-feira, 19 de abril de 2013

Nada sobre o muito

Ainda aqui estou, na sombra, à deriva como um navio que desaprendeu as leis do mar. Quando estávamos juntos era mais fácil. Por isso cá estou, ridiculamente, a tentar desenhar-te. No quase esboço da tua boca. O meu templo pagão. A lâmpada mágica de onde saiu o sorriso mais bonito do mundo. O sorriso que levaste contigo quando desapareceste. Desenho-te a boca a carvão e beijo-a tantas vezes quantas oiço, ao longe, o teu chamar. Deixa-me desenhar o cheiro da tua pele, o calor do teu abraço. Quero desenhar os segredos que guardavas na linha do teu pescoço. O teu silêncio. A tua voz calma a chamar por mim. A tua doce melancolia que desenterrava qualquer infância. Agora há telas em branco, pinceis espalhados pelo chão, e vazio no fundo do corredor. Agora há tempo. Tempo que não termina. Tempo que sussurra: ‘ele já não está aqui’. Eu desenho-te e prometo: vou fazer de conta que não te vi a sair de casa naquele dia, e sigo para onde tiver de ser. Nada me espera depois de te encontrar, e perder, cedo demais.

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